O Poder do Imaginário: Filosofia, Literatura e Tolkien diante do Mundo em Crise

Imaginação das crianças

Bom dia Pessoal, sei que ando meio sumido com as postagens mas tenho uma boa justificativa. Cuidar dos meus filhos pequenos, mais um adolescente, mais a correria com estágio na escola, mais criação do meu TCC (sim, ele vai estar por aqui), mais a aproximação da feira do livro, o corre diário do trabalho… se você cansou de ler, imagine eu que to no prego!

Mas não estamos aqui para ficar na desculpa. Precisamos de soluções corajosas e funcionais. Então vamos para o texto porque ele está riquíssimo.

Qual é o poder do imaginário? O que a filosofia, a literaturas e Tolkien pode nos dizer sobre um mundo em crise no campo das ideias?

Um animal que sonha

O ser humano é um animal que sonha. Entre todas as espécies, somos os únicos capazes de imaginar aquilo que não existe, de criar mundos, heróis, monstros e utopias. O imaginário é mais do que fantasia: é a argila com que moldamos nossa cultura, nossa ética e nossa visão de futuro. Sem ele, não haveria arte, ciência ou religião; não haveria sequer humanidade.

O Imaginário na História da Literatura

Desde as primeiras epopeias — a Epopeia de Gilgamesh, a Ilíada e a Odisseia —, a literatura foi a casa do imaginário humano. Esses textos não são apenas relatos heroicos: são exercícios de imaginação coletiva, símbolos que ajudaram sociedades a se entenderem, a refletirem sobre morte, amizade, justiça e transcendência.

Na Idade Média, a literatura cavaleiresca transformou o imaginário em pedagogia moral, fazendo de figuras como o rei Arthur ou Rolando arquétipos do dever e da coragem. O Renascimento ampliou o horizonte, explorando o imaginário como crítica social e liberdade criativa — basta lembrar de Shakespeare ou Cervantes, que, com ironia e profundidade, revelaram o quanto o imaginário pode refletir e questionar a realidade.

Na modernidade, o romantismo elevou a imaginação ao status de força vital, como em Goethe e Novalis, para quem imaginar era tocar o infinito. A literatura fantástica, nascida no século XIX, mergulhou de vez no inconsciente humano, como em Mary Shelley e Edgar Allan Poe, inaugurando um imaginário que lidava tanto com o belo quanto com o sombrio.

O Imaginário na Filosofia

Conhecer os Mytos não é apenas olhar para o passado com curiosidade arqueológica. É, na verdade, compreender a gramática simbólica da humanidade. Cada mito é uma metáfora existencial que traduz em imagens aquilo que ainda hoje nos inquieta: o medo da morte, o desejo de transcendência, a busca pelo sentido.

O Mito como Fundamento da Reflexão

Antes da filosofia nascer na Grécia, os mitos eram a forma pela qual os homens pensavam o mundo.

  • O Caos primordial de Hesíodo já continha a intuição da origem, tema que a filosofia retomará em termos de “arché”, o princípio primeiro.
  • O mito de Prometeu antecipava questões sobre técnica, poder e limites éticos, que hoje ecoam na bioética e na tecnologia moderna.

“Os Mytos não são apenas narrativas ingênuas que a filosofia teria superado.”

São, ao contrário, a matéria-prima que a filosofia traduziu em conceitos. Quando os primeiros filósofos surgem, não rompem totalmente com o mito, mas o transformam:

  • Tales de Mileto, ao dizer que “tudo é água”, não abandona o imaginário mítico, mas racionaliza a ideia de uma substância originária.
  • Platão, com o mito da caverna, mostra que a filosofia nunca deixou de usar narrativas simbólicas para explicar verdades profundas.
  • Aristóteles herdou a phantasía (imaginação) como parte essencial da cognição, reconhecendo que a razão não nasce no vazio, mas precisa das imagens do imaginário.

Em outras palavras: a filosofia é filha do mito. Ela nasce quando o ser humano começa a perguntar não apenas o que os deuses fizeram, mas o que é o ser, a verdade, a justiça.

O poder dos símbolos

A filosofia nunca deixou de se preocupar com o poder das imagens e símbolos.

  • Platão, em sua célebre Alegoria da Caverna, já refletia sobre o imaginário como aquilo que pode enganar ou conduzir à verdade.
  • Aristóteles, por outro lado, via na phantasía (imaginação) um intermediário essencial entre percepção e razão.
  • Na Idade Média, Santo Agostinho interpretava o imaginário como memória viva da alma, um espaço onde Deus poderia se revelar.
  • Para os modernos, como Descartes e Kant, a imaginação foi pensada em relação ao conhecimento: em Kant, ela é faculdade de síntese, a ponte entre sensibilidade e entendimento.
  • Gaston Bachelard, no século XX, dedicou-se a mostrar como o imaginário poético constrói universos simbólicos — a casa, a água, o fogo — que moldam nossa sensibilidade.

Assim, o imaginário não é mero devaneio: é uma dimensão constitutiva do humano, indispensável para a razão, a ética e a cultura.

Tolkien e o Imaginário Contemporâneo

nesse cenário que J.R.R. Tolkien se torna um dos grandes mestres do imaginário moderno. Em um século marcado por guerras, crises ideológicas e avanços tecnológicos que tanto encantaram quanto ameaçaram a humanidade, Tolkien nos ofereceu a Terra-média como um espelho da condição humana.

Seu conceito de subcriação — a capacidade humana de criar dentro da Criação divina — recoloca o imaginário em sua dignidade mais profunda: não é fuga do mundo, mas participação nele, um ato de co-criação com o Criador. Em suas obras, a imaginação é terapêutica, uma forma de recuperar verdades esquecidas.

Hoje, diante de crises globais — mudanças climáticas, guerras, intolerância, solidão digital —, Tolkien nos recorda que o imaginário é resistência. A jornada de Frodo contra o Um Anel ecoa a luta contra os vícios do poder; a esperança de Sam ilumina a persistência em meio à escuridão; a queda de Númenor alerta contra a arrogância tecnológica e política.

Tolkien não escreveu apenas contos de fadas: escreveu mitos para o presente. Ele soube mostrar que…

“…imaginar é também uma forma de viver, de acreditar e de lutar.”

O Imaginário como Caminho para o Futuro

O desafio do nosso tempo é não perder a capacidade de imaginar. A sociedade global, dominada por algoritmos, consumo e pragmatismo, tende a reduzir o imaginário ao entretenimento superficial. Mas sem o imaginário profundo — o que inspira, questiona e transcende — corremos o risco de empobrecer a própria alma humana.

Tolkien nos lembra de que:

“O imaginário é uma ferramenta ética: ele não apenas inventa dragões, mas também nos dá coragem para enfrentá-los.”

E talvez, em um mundo cansado de promessas técnicas e políticas, seja o poder da imaginação poética, literária, filosófica e espiritual, que poderá reacender nossa esperança. Qual a sua opinião sobr eo poder do imaginário?

Bibliografia

  1. CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 2007.
  2. TOLKIEN, J. R. R. O Hobbit. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2019.


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